Nos anos 1970, havia uma vizinha, que pertencia ao movimento católico chamado "Encontro com Cristo", que tinha como objetivo fixar a fé cristã nos jovens.
Dentro de sua missão evangelizadora ela procurou as mães da vizinhança, que tinham filhos jovens, para convida-los a participar de um desses eventos.
Minha mãe foi convidada a inscrever meus irmãos e eu, mas, antes dela responder, ela resolveu nos consultar para saber quem de nós gostaria de participar.
Embora minha mãe fosse católica, ela não impunha sua religiosidade aos filhos e permitia que cada um seguisse suas convicções.
Mesmo sendo ateu, decidi participar desse "Encontro com Cristo", pois acreditava que para refutar a religião era preciso conhece-la por dentro.
O evento tinha um tempo curto, de quinta à noite, ate domingo à noite.
Foi realizado num espaço reservado, em local afastado de São Paulo, para ficar longe da rotina diária e do barulho e, como disseram, para poder facilitar a concentração.
Participavam, em cada encontro, jovens do mesmo sexo.
No local e hora marcada, o grupo de jovens masculinos da minha turma reuniu-se e formos embarcados em um ônibus, que nos levou ao local onde se realizaria o evento.
Diferente dos demais jovens, que conversavam entre si, durante o trajeto, eu fiquei na janela do ônibus observando o caminho, para saber exatamente onde estava sendo levado, para que, se ocorresse a necessidade de uma eventual fuga do local, eu soubesse como voltar.
Chegamos numa chácara, na região de Parelheiros, num local ermo.
Passamos por uma portaria e o ônibus parou num amplo estacionamento.
Fomos conduzidos a uma construção semelhante ao um convento.
O prédio contava com salões dedicados à palestras, alojamentos, com duas camas e um armário em cada quarto, banheiro coletivo com chuveiros de água quente, um refeitório, com havia diversas mesas coletivas e que tinha na parede uma abertura por onde passavam os pratos com os alimentos, sem que pudêssemos ver quem estava cozinhando atras da parede.
Os moveis eram confortáveis, mas simples.
Houve uma divisão por duplas que ficariam no mesmo quarto e fomos acomodados neles.
Em seguida fomos convidados a jantar no refeitório e na sequencia fomos conduzidos ao salão de palestras, onde foram relacionadas as regras.
Entre elas, que nos comportássemos sem fazer bagunça e avisando que seriamos acordados por um sino às 6 horas da manhã, para nos higienizarmos e depois tomarmos o cafe da manhã.
Fomos dormir por volta da meia noite, como aconteceu no demais dias.
No dia seguinte, já no salão de palestras, surgiu o primeiro palestrante.
Sem perceber, estava sendo submetido a um método de lavagem cerebral.
Primeiro porque havia dormido pouco, então a minha mente estava pronta para ser conquistada por alguém que pertencesse ao grupo dos que pensavam como eu pensava, mesmo sabendo que ali era um local eminentemente católico.
Tanto o primeiro palestrante, como os seguintes, falaram, durante toda aquela sexta feira, com tanta convicção sobre o que acreditava, que me despertou um sentimento de pertencimento ao grupo.
Na parte noturna, a conversa começou a mudar de direção.
Mas, não tinha problema. tanto eu, como os demais, estávamos capturados.
No sábado, as palestras já estavam mais emotivas e nos levaram, ao final do dia a chorarmos e abraçarmos entre si, numa comunhão de pessoas que eram desconhecidas, mas estávamos integrados em nome de Cristo.
No domingo, continuaram as mensagens sobre a vida de Cristo e seu poder de transformação.
O evento foi encerrado na noite de domingo, ja em São Paulo, numa catedral, no bairro do Paraíso, onde estavam todos os familiares dos que participaram do evento, além de outras pessoas ligadas à igreja, com uma mistura de missa e depoimentos dos "jovens encontristas".
Antes, ainda na chácara, fomos orientados a fazer declarações sobre nosso encontro com Cristo.
Acabei fazendo declarações, no automático, conforme havia sido programado.
Fomos convidados a frequentar aquela igreja para mantermos nossa união.
Aquela noite, já em casa, minha mente estava confusa.
Levei a semana toda para me desintoxicar e voltar às minhas convicções.
Por que contei essa historia?
Flavio Bolsonaro, assim como o pai Jair, tem dificuldades para atrair o voto feminino.
A coisa se agrava, pois o voto das mulheres poderá decidir quem vencera a eleição.
Assim, urgiu encontrar uma maneira de conquistar os votos femininos.
No campo de minha especulação, observei que, como Michelle Bolsonaro é evangélica, ela poderia ser o canal para atingir as mulheres evangélicas, que a tem como líder, e reverter esse quadro negativo, utilizando o mesmo método, que fui submetido, no passado, junto às mulheres evangélicas.
Observe que em seu pronunciamento, Michelle criticou fortemente Flavio Bolsonaro, acusando-o de misoginia, com o objetivo de chamar essas mulheres para seu grupo de pertencimento.
Agora, com elas em comunhão com suas crenças, acredito que voltara a dar apoio à Flavio Bolsonaro.
O pai, Jair, escreveu uma carta clamando a união na família.
Resta a Michelle finalizar a estrategia, dando seu apoio e pedindo às mulheres que façam o mesmo.